O manifesto Casa Livre

Deixamos de ser nômades, domesticamos bichos e plantas, construímos casas, criamos modelos políticos, cidades, avenidas, meios de transporte, fronteiras. Aumentamos nossa expectativa de vida através da urbanização, do desenvolvimento tecnológico e científico. Mas com o tempo, nosso avanço civilizatório foi ficando com cara de retrocesso. Nossa sociedade destrói, mata bicho, planta e gente sob a bandeira do progresso. Nos alimentamos mal, temos doenças físicas, psicológicas, nos sentimos vazios e consumimos em excesso. Temos uma diversidade imensa de alimentos instagrâmicos disponíveis nos supermercados (que mais parecem uma roleta russa do câncer). Temos biomas riquíssimos, protegidos por leis cheias de brechas. Selamos nossas ruas com asfalto e sofremos com as chuvas que transbordam o retrato do consumismo desenfreado. A sede de poder parece maior que a necessidade de água. Enquanto a água completa seu ciclo natural, os rios canalizados não podem mais ter peixes e só devolvem o lixo. Lixo esse, que um dia foi matéria prima, retirada diretamente da natureza. Vê?O meio ambiente segue as leis da física: nasce, vive, morre, se transforma, circula. E é vivo por isso, porque se movimenta. A natureza nos empresta seus pedaços para andarmos por aí, criarmos nossas casas, objetos, alimentos. Mas ela espera uma devolução. Mesmo que o empréstimo seja vitalício, ela aguarda o retorno. E o que estamos devolvendo? Nós apenas, em uma forma polida de dizer, descartamos. E assim, pouca água fresca e quase nenhuma sombra é o que nos resta. Crise hídrica, climática, econômica, política; os atritos vêm de todos os lados e nos sentimos culpados, incapazes, a crise parece ser existencial. Somos natureza. Da bateria do seu celular, até o tecido sintético da roupa fast fashion, ao tecido que estrutura a ponta do seu dedo rolando esse texto na tela, tudo é parte da natureza. Olhe ao seu redor. A natureza habita cada pedacinho de você e também tudo o que está aqui e aí. E a natureza dá com fartura, basta respeitá-la e aprender com ela. A natureza é mãe, alimento e casa. Devíamos ter consciência de que ela é parte do dia a dia.Uma sociedade mais justa pode ser construída com uma guinada neste caminho cinza que habitualmente seguimos. Precisamos reaprender a utilizar as matérias primas. Precisamos direcionar nossos avanços tecnológicos em consonância com o que somos, verdadeiramente. Vamos plantar, colocar vida em cada canto asfaltado, vamos escolher políticas que protejam nossa casa, nosso alimento, nossa educação, nosso desenvolvimento. Aliar a tecnologia ao desenvolvimento sustentável é criar a chamada cidade inteligente: Precisamos demandar que empresas pratiquem a logística reversa, ampliar as possibilidades de reciclagem, valorizar a terra, a agricultura familiar, os produtores locais, viabilizar a agricultura orgânica nas cidades, expandir a produção e o acesso a fontes de energia limpa, promover o acesso universal à saúde, educação, moradia e principalmente, consumir de forma consciente. Precisamos usar nossas tecnologias para criar unidade, para beneficiar a todos. Tudo é natureza. Só existe natureza. Matá-la é suicídio, enquanto cultivar é viver. Bertolt Brecht escreveu no século passado: “Não aceites o habitual como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.” A mudança está ficando cada vez mais tangível e necessária. Nossas ações aqui em Mariana são palestras e workshops, projetos ambientais, sociais e educacionais. Se você está aqui, venha participar das atividades da Casa Livre. Se você está longe, pode replicar os projetos por aí, é só falar com a gente. Seguimos, aprendemos : )